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Futebol

Joel, uma lição de vida!

Há muito tempo, muito tempo mesmo eu gostaria de ter escrito esse texto.

Trata-se de um pedido de desculpas a uma pessoa que me fez entender que a hipocrisia não é um problema apenas das pessoas importantes ou dos poderosos políticos e sim, um problema que está dentro de nós mesmos.

Antes de começar, eu quero voltar um pouco no tempo e lembrá-los do momento em que o técnico de futebol Joel Santana assumiu a seleção da África do Sul, em meados de 2008. Não será preciso forçar muito a memória de vocês, pois só de ter citado o nome do técnico, já devem ter se lembrado de algumas cenas pitorescas e pra lá de engraçadas com Joel arriscando no inglês.

Pois é pessoal, quem não achava engraçado, criticava a iniciativa do técnico e questionava seu “talento” no idioma americano. A zombação era tanta que, é claro, rapidamente os já famigerados meios de comunicação (jornais, sites de esporte, YouTube etc) estavam carregados de notícias e vídeos onde Joel protagonizava cenas das quais riamos muito e até sentimos um pouco de vergonha alheia.

Sim, vergonha. Devíamos mesmo sentir vergonha.

Mas estou aqui não para falar dos erros dos outros, mas para demonstrar meu profundo arrependimento em ter participado dessas zombações. Sim, eu assumo o que fiz, mas se me permitirem, gostaria de tentar corrigir isso.

A hipocrisia que tomou conta de mim chegou ao clímax, cheguei a ver por várias vezes, vídeos da Internet para poder imitar Joel com perfeição e fazer sucesso. Não vou dizer que não ficou engraçado, mas percebam o paradoxo de uma pessoa que mal sabe falar inglês, tentar ridicularizar outra, que por mais que não saiba ou não o faça com destreza ou formosura não está fazendo por que é moda ou por achar bonito, mas por necessidade e pelo seu trabalho.

É claro que, apesar de estar sendo duro comigo mesmo, talvez eu não tenha feito isso por pura maldade, muitos que me conhecem saberiam que não, pois eu costumo brincar com tudo e com todos, mesmo assim, é totalmente incaceitável essa atitude. Vou explicar melhor porque.

Um final de semana qualquer, durante o almoço de domingo com família, ligo a TV e vejo o Sr. Joel Natalino Santana dando uma entrevista ao Esporte Espetacular, mais que isso, dando uma lição “espetacular” de vida. (perdoem-me pelo trocadilho)

Joel falava das idas e vindas do futebol, dos momentos de jogador, da fase da sua carreira em que se deparou com o gigante Pelé e teve que marcá-lo, contou que levou até cotovelada do rei.

Assistindo Joel na TV,  pude perceber tamanha simplicidade e humildade na sua maneira de falar, no seu português simples mas exuberante, não pela complexidade de suas frases ou pelas palavras difíceis, mas por conseguir expressar seus sentimentos de forma única.

Mas o melhor ainda estava por vir. Já quase no final da entrevista, o repórter pergunta a Joel sobre as gozações e chacotas que percorrem mundo a fora, por tentar se expressar em outro idoma. Aí vem um bomba de efeito moral, capaz de deixar qualquer um sem palavras e, sem graça qualquer um que tenha por um momento se quer caçoado dele.

Não, não foi uma réplica, não foi um ataque. Pelo contrário. A humildade foi tamanha que só não me senti ridículo diante daquele homem, porque ele mesmo não permitiu que isso acontecesse. Joel diz:

“Nós vivemos num país que as vezes eles pegam muito mais o lado da gozação, da brincadeira do que ver a virtude e o talento de alguma pessoa.”

Isso sim, me fez parar naquele momento, esquecer qualquer outra coisa que estivesse fazendo e prestasse mais a atenção, não apenas na entrevista, que já estava no finalzinho, mas prestasse mais atenção nos meus próprios atos!

Joel, assim como muitos brasileiros, veio de família pobre, enfrentou dificuldades para estudar, seus pais trabalhavam demais e ganhavam pouco e nem por isso, teve medo do preconceito.

Apesar de ter sido convocado em outro país, Joel não deixou de ser um brasileiro convicto. Em um momento com um repórter africano Joel foi chamado de “Mr. Ninguém” e ele rebateu:

“O que eu sou você pode ver na internet, o meu trabalho está lá, e você, quem é você? Escreve pra qual jornal? Onde é publicado essas coisas?”

Um lição, sem dúvidas, de humildade, de caráter, de como ser homem digno e de como respeitar as pessoas.

Eu aprendi a minha. Apesar de sentir-me envergonhado, nas suas palavras Joel, “Tá legal” como quem diz “Levante-se, você ainda tem muito o que fazer”

Encerro este texto, com as palavras de um grande homem, simples mas que possui um coração de verdade:

“As vezes a gente não tem condições de ajudar as pessoas, mas procurarem ter um futuro melhor. Você vê tanta pessoa com dificuldade de estudo, de comida, de moradia pois vem uma chuva e acaba com tudo e vai dormir Deus lá sabe onde …E nós que temos um pouquinho mais de condição a gente tem que ajudar essas pessoas, porque é falta de condição mesmo, eu tive esse exemplo aqui e tive esse exemplo lá (refere-se ao Brasil e a África do Sul) Sei lá, o mundo devia ser um pouquinho mais igual…”

o repórter pergunta a Joel,

“Joel se você fosse o repórter hoje, que pergunta você faria à Joel Santana?”

Joel responde, não com uma pergunta, mas com mais uma de suas lições:

“Você tá mais lindo que nunca hoje…”

Sobre drlobato

Um profissional da área da informática, entusiasta da música sob qualquer forma, amante da vida e das coisas simples.

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